segunda-feira, 11 de março de 2019

יהוה


DEUS (יהוה)

Quando pensamos em "deus" nos deparamos com inúmeros problemas... o principal deles é, sem sombra de dúvidas, a barreira cultural inserida em nossas mentes de uma figura irrefutavelmente boa e infalível. Falar de deus (independentemente de qual deus) é ir de encontro a uma fortíssima correnteza de pensamentos, ideias, crenças e doutrinas. É ser odiado por uma maioria esmagadora. No mínimo, mal visto por esta! Especialmente o cristianismo, uma seita que, por séculos, estava em um topo de reverência, impondo sua fé por meio do medo e das ameaças (vistas até hoje porém de outras formas) e que agora se encontra em meio a uma enxurrada de críticas e releituras das "sagradas" escrituras colocando em dúvida a tal irrefutabilidade da doutrina e do próprio deus. E esta é mais uma releitura de um dos atributos mais característicos do deus judaico-cristão: o amor.

Para conduzir a leitura ao ponto focal do texto que é o amor "irrefutável" de Yahweh preciso, antes de tudo, falar sobre outros três atributos: a onipresença, onipotência e onisciência de deus. De forma bem direta e simples podemos tratar a ONIPRESENÇA como o atributo de "estar em todos os lugares ao mesmo tempo"; a ONIPOTÊNCIA como o atributo de "ter todo o poder, de ter poder infinito"; e ONISCIÊNCIA como o atributo de "conhecer todas as coisas, conhecimento ilimitado das coisas".

Tendo conhecimento desses atributos agora imagine deus diante do homem e da mulher os quais criara. Idealize o Jardim do Éden e todas as coisas que deus criou e ali colocou. Imagine a árvore e o fruto do conhecimento, a árvore cujo fruto deus proibiu que o homem e a mulher consumisse! Bem, deus em sua onisciência ele conhece todas as coisas, o passado, o presente e o futuro. Ele viu a serpente entrar no jardim antes mesmo que isto ocorresse. Ele sabia que ela ofereceria o fruto a mulher e que esta não somente comeria como também ofereceria o fruto ao homem. Deus sabia que ambos desobedeceriam antes mesmo de criar o homem. Deus sabia que o homem e a mulher que criara cairia, seria expulso do Jardim e que muitos pagariam por este erro. O deus bíblico sabia que, com a desobediência de Adão pessoas morreriam e iriam para o inferno (ver Romanos 5:12) que o mesmo criou para castigar aqueles que não seguissem seus parâmetros de conduta. Antes de criar o homem, Jeová sabia que muitos morreriam de fome, na guerra, de doenças. Mesmo assim, deus criou o homem e os culpou por tais desgraças. Mas imagine eu e você como pais e o nosso filho corre em direção a um precipício sem ter a noção da queda, da altura, de que se ele cair morrerá e eu, como pai, não intervenho, permito que o meu filho a quem digo amar continue correndo, caia e morra e, por fim, eu o culpo. Um ser inocente, sem discernimento do bem, do mal, da vida e da morte, alguém que eu gerei, que permiti correr em direção ao abismo mesmo sabendo que se continuasse, cairia e morreria.

O amor de deus está intimamento ligado ao seu próprio Eu. Um "amor" tão egocêntrico quanto o próprio deus. A justiça do mesmo é falha quando colocamos em análise um homem que, por exemplo, abusou de crianças e, em seu leito de morte aceita a Cristo como seu salvador e clama pelo sangue do cordeiro sobre sua vida e este sangue o limpará de todo o pecado levando-o a vida eterna, a salvação (1 João 1:7) e, uma das crianças abusadas por este homem salvo, chega na vida adulta, passa a não crer neste deus e nem em Cristo, não perdoa o homem que lhe fez mal porém vive uma vida bondosa e honesta diante dos homens, este irá para o inferno por não confessar a Cristo e negá-lo como seu salvador (Mateus 10:33) e não ter perdoado o homem que o estuprou (Mateus 5:44). Não importa o quão bom você é, se não se ajoelhar diante do ego de Jeová certamente será condenado ao inferno, assim como não importa o quão mau você foi durante sua vida, não importa se você estuprou, matou, roubou, mentiu, enganou, traiu... se no fim da sua vida você aceitar ao Cristo certamente serás salvo.

Imagine quantas crianças, jovens, adultos e velhos morrem por dia devido a violência, acidentes e catástrofes. Agora imagine essas pessoas que nasceram em uma cultura com padrões comportamentais e credos que não se enquadrem nos parâmetros do cristianismo. Imagine alguém que cresceu acreditando em vários deuses mas que vive na bondade e no amor. O inferno realmente parece ser justo para estas pessoas enquanto o céu é uma garantia para os que creem no filho de deus mesmo tendo levado uma vida mergulhada na ganância e no ódio? Questionar a soberania e o amor de deus é algo quase que impossível para os que tem nele a imagem perfeita da criação e da misericórdia. Questionar deus em todos os seus aspectos parece ser o maior dos pecados. Muitos morreram pelas mãos dos santos por se posicionar contra a imagem de deus e a irrefutabilidade da igreja e suas doutrinas. Muitos conseguiram enxergar a verdadeira imundícia por trás do simbolismo do sangue de Cristo, por trás da santidade pregada pelos representantes de deus, por trás do conservadorismo pregado pelos santos, muitos conseguem ver o verdadeiro mal por trás das pregações nas igrejas cristãs que nada mais são que maquiagem para esconder o que há de mais doentio no homem. Não é a toa que deus diz ao criar o homem: "Façamos o homem a nossa imagem e semelhança..." (Gênesis 1:26) herdando, assim, o egocentrismo e ganância daquele que o criou.

Finalizo este texto com uma frase de Sam Harris: "Qualquer deus que permita que crianças aos milhões sofram e morram desta maneira e que seus pais se lamentem desta forma, ou não consegue fazer nada para ajudá-los ou não se importa com eles. Ele é, por tanto, impotente ou mau."

by Heillel Sabalt

terça-feira, 5 de março de 2019


PORTADOR DA LUZ

                Limpo, belo e iluminado. Assim era aquele reino, lá no alto daquelas grandes montanhas cobertas pela neve que desce do imenso céu escuro. Sim, era belo, grandioso, rico em bondade e verdade. Caminhava pelos imensos jardins brancos com meus irmãos, sorriamos quando víamos aquelas maravilhosas e raras criaturas correndo pelos vastos campos. O tempo era desconhecido, não se ouvia falar em passado, presente, nem futuro, pois o amanhã sempre chegaria.
                Caminhava pelos corredores, imensas portas, imensas janelas, lindas colunas seguravam os andares acima, inúmeros andares. No salão central caia uma cachoeira em um abismo que parecia não ter fim. Aves imensas e menores voavam pelo céu límpido, seus cantos me inspiravam, o bater de suas asas me acalentavam. Foi em uma dessas minhas caminhadas que o vi. Esplêndido sem dúvidas. Roupas límpidas e brancas, tão majestoso e tão santo diante dos seus. Falava belas palavras. Até o mais sábio mergulharia em suas filosofias sagradas, se confortaria em cada um de seus mandamentos e renegaria sua sabedoria para viver eternamente em servidão. Eu me deleitava em suas palavras, me refugiava nos braços do seu imensurável amor. Desejei, desejei ser como ele, como o altíssimo. Desejei sua beleza, sua autoridade, sua grandiosidade, apenas desejos, nada mais. Sua onisciência foi meu maior inimigo. Seus olhos luminosos que em nossa essência penetrava. Talvez ali perdera sua confiança em mim, o guardião de seus mais valiosos bens, o criador das mais belas canções de adoração. Foi em uma dessas minhas caminhadas que o vi...


 Em suas portas ouvi seus planos, e como cortinas pesadas e escuras caiu a cegueira de meus olhos, um coração humano cheio de ódio me foi dado, um coração sincero foi colocado em minha alma obscurecida pela verdade. Escravos sofridos seriam os homens, isentos de inteligência e de vontade própria, cegos e imóveis, dominados como marionetes pelo egoísmo e pelo ciúme doentio. Parecia não acreditar no que meus ouvidos ouviram. Por um momento senti-me enganado por mim mesmo, como se meus sentidos tivessem me traído. Mas o tempo desfigurou a imagem Dele apodrecendo seu amor e sua verdade convertendo-as em ódio e mentiras.

                Caí, desci dos mais altos céus juntamente com meus irmãos até as profundezas do frígido, imenso e escuro abismo. Minha nova moradia. Minha beleza se foi... minha luz se foi. Séculos se passaram depois da queda. Meus mensageiros viram um belo jardim, com seres jamais vistos por nós, uma réplica do grande céu próximo da nossa morada. Decidi ver com meus próprios olhos. De longe avistei sua beleza e imensidão. A luz do altíssimo pairava sobre o local. Tinha que arriscar, tinha que me aproximar, relembrar como era minha antiga morada. O verde cobria toda aquela área, os rios de águas cristalinas banhavam as margens onde maravilhosos seres descansavam.  Dentre todos os animais que ali vi, um me chamou muita atenção. Semelhante ao altíssimo. Agoniei-me e imediatamente me retirei daquele local retornando ao silêncio do meu escuro. Contei tudo o que vi ali aos meus irmãos, eles ficaram abismados e surpresos, queriam também ir até lá, mas os proibi, não sabíamos o que eram nem o que poderiam fazer conosco.
                Depois de um bom tempo retornei aquele lugar. Continuava belo e maravilhoso. Vi um ser que se rastejava pela areia, imediatamente dominei seu corpo e me aproximei do mesmo rio que cortava aquele lugar e novamente avistei a criatura e dessa vez havia outra parecida com ele. Os céus se abriram e o vi, depois de muito tempo. O ouvi falar sobre os frutos do jardim que poderiam comer a todos menos à um, o do conhecimento. Certamente ele sabia da minha presença, enquanto falava com os seres ele apontava para a direção oeste do jardim como se quisesse que eu fosse até lá. Rastejei por entre as plantas e vi uma imensa árvore dourada, diferente das outras. Nela haviam muitos frutos de cor escura, talvez um roxo, e logo soube que aquela certamente era a árvore que ele falara para aquele a quem chama de homem. Ouvi ele dizer belas palavras para o homem, o acariciava, dizia este ter sido sua mais bela criação. Me entristeci, logo me lembrei de seus planos para com a nova raça que criara, como o destino deles seria terrível. Mas não queria ajudá-los. Ele descobriria. Mas também não poderia deixar isso ocorrer. Me escondi entre as folhas daquela árvore. Vi que a outra criatura que estava com o homem caminhava por perto da árvore e logo comecei a cantar uma canção que criara nos tempos celestiais. Logo ela se aproximou, espantada e curiosa. Rastejei até perto dela, olhei em seus olhos esverdeados e vi o início do novo e terrível mundo dele: tristeza. Perguntei onde estava o homem, ela baixou a cabeça e fez sinal de negação. Peguei uma fruta daquela árvore, disse que se ela comece não morreria, mas seria igual ao altíssimo. De início ela negou, mas pedi para que ela levasse uma com ela caso mudasse de ideia e assim ela fez. Tempos depois vi que o céu escurecia e o grande descia rapidamente no jardim. Ele descobriu o que ele já sabia com sua onisciência, o homem comeu do fruto. Expulsou os dois do jardim e lançou algumas maldições neles. Logo veio ele até mim sorrindo. Estranhei e temi. Vi em seus olhos o real problema, cai em seu plano, tudo foi parte do plano. O homem tornou-se escravo e marionete de suas escolhas, pois do fruto da vida não comeu e apenas no conhecimento. Dor, ódio, morte, fome, miséria, ambição, ganância, dominaram a terra. Mas ela não esperava que o amor do homem para com sua própria espécie crescesse tanto mesmo com o ódio e a guerra. A mãe que dá a vida pela do filho, o incrédulo que ajuda o necessitado enquanto os filhos do senhor dos senhores estão preocupados com seu bem estar ameaçando os outros com uma ferramenta de opressão criada por eles a qual chamaram de inferno. Está nas mãos do homem as chaves da liberdade eterna, eu, aquele que leva a luz vos entrego o conhecimento escondido naquele fruto, através dele se darás bem ou mau no caminho espinhoso dessa terra árida. Trilha teus próprios caminhos, ama-te acima de todas as coisas. Eu sou o que sou, a Estrela da Manhã...  Heilel Ben-Shachar.


by Heillel Sabalt