PORTADOR DA
LUZ
Limpo, belo e iluminado. Assim
era aquele reino, lá no alto daquelas grandes montanhas cobertas pela neve que
desce do imenso céu escuro. Sim, era belo, grandioso, rico em bondade e
verdade. Caminhava pelos imensos jardins brancos com meus irmãos, sorriamos
quando víamos aquelas maravilhosas e raras criaturas correndo pelos vastos
campos. O tempo era desconhecido, não se ouvia falar em passado, presente, nem
futuro, pois o amanhã sempre chegaria.
Caminhava pelos corredores,
imensas portas, imensas janelas, lindas colunas seguravam os andares acima,
inúmeros andares. No salão central caia uma cachoeira em um abismo que parecia
não ter fim. Aves imensas e menores voavam pelo céu límpido, seus cantos me
inspiravam, o bater de suas asas me acalentavam. Foi em uma dessas minhas
caminhadas que o vi. Esplêndido sem dúvidas. Roupas límpidas e brancas, tão
majestoso e tão santo diante dos seus. Falava belas palavras. Até o mais sábio mergulharia
em suas filosofias sagradas, se confortaria em cada um de seus mandamentos e
renegaria sua sabedoria para viver eternamente em servidão. Eu me deleitava em
suas palavras, me refugiava nos braços do seu imensurável amor. Desejei,
desejei ser como ele, como o altíssimo. Desejei sua beleza, sua autoridade, sua
grandiosidade, apenas desejos, nada mais. Sua onisciência foi meu maior
inimigo. Seus olhos luminosos que em nossa essência penetrava. Talvez ali
perdera sua confiança em mim, o guardião de seus mais valiosos bens, o criador
das mais belas canções de adoração. Foi em uma dessas minhas caminhadas que o
vi...
Em suas portas ouvi seus planos, e como cortinas pesadas e escuras caiu a cegueira de meus olhos, um coração humano cheio de ódio me foi dado, um coração sincero foi colocado em minha alma obscurecida pela verdade. Escravos sofridos seriam os homens, isentos de inteligência e de vontade própria, cegos e imóveis, dominados como marionetes pelo egoísmo e pelo ciúme doentio. Parecia não acreditar no que meus ouvidos ouviram. Por um momento senti-me enganado por mim mesmo, como se meus sentidos tivessem me traído. Mas o tempo desfigurou a imagem Dele apodrecendo seu amor e sua verdade convertendo-as em ódio e mentiras.
Caí, desci dos mais altos céus juntamente com meus irmãos até as profundezas do frígido, imenso e escuro abismo. Minha nova moradia. Minha beleza se foi... minha luz se foi. Séculos se passaram depois da queda. Meus mensageiros viram um belo jardim, com seres jamais vistos por nós, uma réplica do grande céu próximo da nossa morada. Decidi ver com meus próprios olhos. De longe avistei sua beleza e imensidão. A luz do altíssimo pairava sobre o local. Tinha que arriscar, tinha que me aproximar, relembrar como era minha antiga morada. O verde cobria toda aquela área, os rios de águas cristalinas banhavam as margens onde maravilhosos seres descansavam. Dentre todos os animais que ali vi, um me chamou muita atenção. Semelhante ao altíssimo. Agoniei-me e imediatamente me retirei daquele local retornando ao silêncio do meu escuro. Contei tudo o que vi ali aos meus irmãos, eles ficaram abismados e surpresos, queriam também ir até lá, mas os proibi, não sabíamos o que eram nem o que poderiam fazer conosco.
Depois de um bom tempo retornei aquele lugar. Continuava belo e maravilhoso. Vi um ser que se rastejava pela areia, imediatamente dominei seu corpo e me aproximei do mesmo rio que cortava aquele lugar e novamente avistei a criatura e dessa vez havia outra parecida com ele. Os céus se abriram e o vi, depois de muito tempo. O ouvi falar sobre os frutos do jardim que poderiam comer a todos menos à um, o do conhecimento. Certamente ele sabia da minha presença, enquanto falava com os seres ele apontava para a direção oeste do jardim como se quisesse que eu fosse até lá. Rastejei por entre as plantas e vi uma imensa árvore dourada, diferente das outras. Nela haviam muitos frutos de cor escura, talvez um roxo, e logo soube que aquela certamente era a árvore que ele falara para aquele a quem chama de homem. Ouvi ele dizer belas palavras para o homem, o acariciava, dizia este ter sido sua mais bela criação. Me entristeci, logo me lembrei de seus planos para com a nova raça que criara, como o destino deles seria terrível. Mas não queria ajudá-los. Ele descobriria. Mas também não poderia deixar isso ocorrer. Me escondi entre as folhas daquela árvore. Vi que a outra criatura que estava com o homem caminhava por perto da árvore e logo comecei a cantar uma canção que criara nos tempos celestiais. Logo ela se aproximou, espantada e curiosa. Rastejei até perto dela, olhei em seus olhos esverdeados e vi o início do novo e terrível mundo dele: tristeza. Perguntei onde estava o homem, ela baixou a cabeça e fez sinal de negação. Peguei uma fruta daquela árvore, disse que se ela comece não morreria, mas seria igual ao altíssimo. De início ela negou, mas pedi para que ela levasse uma com ela caso mudasse de ideia e assim ela fez. Tempos depois vi que o céu escurecia e o grande descia rapidamente no jardim. Ele descobriu o que ele já sabia com sua onisciência, o homem comeu do fruto. Expulsou os dois do jardim e lançou algumas maldições neles. Logo veio ele até mim sorrindo. Estranhei e temi. Vi em seus olhos o real problema, cai em seu plano, tudo foi parte do plano. O homem tornou-se escravo e marionete de suas escolhas, pois do fruto da vida não comeu e apenas no conhecimento. Dor, ódio, morte, fome, miséria, ambição, ganância, dominaram a terra. Mas ela não esperava que o amor do homem para com sua própria espécie crescesse tanto mesmo com o ódio e a guerra. A mãe que dá a vida pela do filho, o incrédulo que ajuda o necessitado enquanto os filhos do senhor dos senhores estão preocupados com seu bem estar ameaçando os outros com uma ferramenta de opressão criada por eles a qual chamaram de inferno. Está nas mãos do homem as chaves da liberdade eterna, eu, aquele que leva a luz vos entrego o conhecimento escondido naquele fruto, através dele se darás bem ou mau no caminho espinhoso dessa terra árida. Trilha teus próprios caminhos, ama-te acima de todas as coisas. Eu sou o que sou, a Estrela da Manhã... Heilel Ben-Shachar.
by Heillel Sabalt


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